domingo, 28 de agosto de 2016

Histórias Curiosas XXVI


Malandro é malandro. Ainda mais quando se trata da infame prática do abigeato, tão comum aqui nos campos do sul e que causa tanto prejuízos a nossos criadores. Só que alguns roubos, apesar de serem sempre condenáveis, são passados à memória por seu aspecto folclórico.
Havia um senhor de origem alemã na região do distrito (?) de Domingos Petroline, em Rio Grande, que, entre várias atividades agropastoris a que se se dedicava, tinha uma criação de porcos. O sujeito era zeloso com a criação e mantinha uma rigorosa vigilância sobre os porquinhos. Já haviam lhe causado prejuízos no passado e ele não queria novamente ter que sofrer um outro dano. 
Por outro lado, na mesma região, dois sujeitos extremamente ladinos estavam há algum tempo articulando uma forma de roubar os porcos do alemão, mas sabiam que não seria tarefa fácil. Os dois malandros (pai e filho) descobriram que o tal alemão gostava de duas coisas em particular: de uma boa conversa e de ser adulado. O pai não se tardou em visitar o alemão com uma cuia de chimarrão na mão, demonstrando muito interesse nas coisas que o alemão plantava e criava e disposto a elogiar o agricultor o tanto quanto fosse possível. O alemão recebeu o malandro meio que desconfiado, conhecia o homem mais de vista, tinha conversado algumas vezes com o mesmo e estava muito atarefado no momento. Mas o malandro (o pai!) soube já de início demonstrar uma simpatia incomum pelo trabalho do alemão, perguntando-lhe as mais diversas coisas e conferindo uma importância ao seu conhecimento de coisas de campo quase venerável. E não foi que o alemão caiu na lábia do sujeito! 
Não demorou muito, o alemão chamou o malandro-pai para a varanda da casa para sentarem-se e até pediu à esposa que preparasse umas pipocas para melhor receber o convidado. Entre cuias de chimarrão e muitas conversas, o malandro-pai cautelosamente dá um sinal por meio do telefone celular ao malandro-filho que está com uma camionete estrategicamente estacionada numa capoeira nos fundos da propriedade do alemão. O malandro-filho recebe o "sinal" e prepara o roubo.
Munido de vários pedaços de pão embebido na cachaça mais vagabunda e forte, o malandro-filho vai dando os nacos aos porquinhos que avidamente devoram aquela "iguaria". Não dá dez minutos, vários porcos estão no chão anestesiados e o malandro-filho faz rapidamente o trabalho de prender as patas dos bichos com uma corda e carregá-los para a caçamba da camionete, sendo que alguns ele já havia abatido ali mesmo. A fartura do roubo se justifica: entre abatidos e ainda vivos, a camionete fica apinhada com pelo menos uns dezesseis porcos. Sempre silencioso, o malandro-filho arranca com a camionete, toma a estrada e dá o sinal de retorno para o malandro-pai via telefone celular. O malandro-pai recebe a mensagem, desculpa-se com o alemão pois haveria de sair rapidamente devido a um imprevisto e se despede, porém puxando o saco do alemão ainda mais e prometendo voltar.
No fim do dia, o alemão ainda muito orgulhoso em ter compartilhado seus conhecimentos rurais com um "grosseirão", vai dar farelo aos porcos no galpão dos fundos e descobre o infeliz acontecido. Coitado!
Na estrada mais adiante, o pai e o filho se encontram e comemoram a façanha. Entre outras coisas, o filho curioso pergunta ao pai o que ele havia feito para manter o alemão tão entretido. O pai ladino muito cafajeste emenda:
- Perguntei a ele como se fazia para criar porco! O sujeito me explicou tudinho.

sábado, 27 de agosto de 2016

Histórias Curiosas XXV

Trabalhador, honesto, respeitado e bem conhecido na Vila do Capão do Leão, o sujeito tinha um defeito que lhe rendia uma boa fama nas ruas da localidade: era um "barbeiro" de longa data. Era ele sentar diante do volante que o pânico estava instalado nas ruas e estradas. Dizia-se que o citado era extremamente distraído e isso se devia a um problema de visão que lhe acompanhava desde a infância. Mas, o fato é que havia tirado a carta de motorista e transitava de um lado para o outro como se não houvesse amanhã.
Conseguiu, então, comprar uma picape (camionete) Ford (daqueles modelos lançados nos anos 70) usada que lhe era muito útil no dia-a-dia. Duas vezes por dia, ele cruzava a Avenida Narciso Silva a todo vapor, uma de manhãzinha e outra à tardinha. Cada vez que aquela camionete aparecia na avenida era um terror. Cachorro, pedestre, charrete...o que estivesse em seu caminho...sai da frente! Ele vinha levantando tudo pelos ares.
Foi então que, novamente muito apressado, o sujeito e seu "fordinho" (como ele mesmo denominava) adentraram a avenida Narciso Silva vindo do Cerro das Almas. Querendo chegar logo a seu destino, o notório "barbeiro" irritou-se ao perceber que um caminhão manobrava na via, querendo sair de um pátio para seguir adiante. Foi o tempo do caminhão tomar rumo e o "barbeirão" acelerou forte com a camionete, sem se dar conta que havia uma moto estacionada logo adiante, encostada junto ao meio-fio. Resultado, a motinha virou um brinquedo nas rodas da camionete, sendo cinematograficamente catapultada vários metros na calçada e o "barbeirão" seguiu como se nada tivesse acontecido. Poderia parecer maldade do sujeito, mas quem o conheceu é categórico em afirmar que ele realmente não se dava conta das barbeiragens que cometia, muito provavelmente pelo espírito distraído e a baixa visão. Estava mais para um "bobo irresponsável" na direção, do que um "patife irresponsável". Como tirou a habilitação de motorista? Bem, os tempos eram outros no País.
Mas voltando ao cerne do relato, o fato é que a motinha ficou estraçalhada na calçada e o sujeito seguiu sabe se lá para onde em sua pressa habitual. Resolveu o que queria resolver e parou para reabastecer no antigo Posto Kaiser (na esquina da Avenida Narciso Silva com a Rua João Rouget Peres) quando já estava iniciando a noitinha. Sai do carro, conversa com um, conversa com outro, quando um dos funcionários do posto comenta no grupo que estava reunido no posto, entre outros funcionários e clientes, o seguinte:
- Bah, o Zé Paulo está inconsolável, uma camionete bateu na moto dele lá perto do Esmelindro e o motorista se mandou!
O "barbeirão" muito surpreso quer saber mais e indaga:
- Mas o Zé Paulo viu quem era o motorista?
O funcionário responde:
- Olha, ele estava trabalhando nos fundos de casa e não viu, mas parece que a Dona Nair viu um detalhe na camionete, mas não sei se ele ainda identificou quem era.
Eis que o "barbeirão" comenta muito indignado:
- Pois é, né tchê?! Que barbaridade, como tem gente despreparada hoje em dia dirigindo...vai ver que o sujeito não é daqui. Eu até me revolto com um troço desses!

Dias depois, o "barbeirão" pagava o conserto da moto religiosamente e se perguntava como havia batido na mesma sem se dar conta.

Nota: os nomes usados são fictícios.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Faleceu Gilmar Oliveira Maciel

Com muita lástima, recebemos a notícia do falecimento do nosso grande amigo Gilmar Oliveira Maciel hoje à tarde em Porto Alegre por volta das 15 horas, local em que estava hospitalizado desde o  último sábado dia 20. Maciel -  como era popularmente conhecido - era vigilante da Universidade Federal de Pelotas e um dos personagens mais atuantes da cultura leonense, destacado tradicionalista e um dos fundadores e ex-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Capão do Leão.
O saudoso amigo e sua natural expressividade e simpatia

Nascido em 10 de Junho de 1955, Maciel era cria natural da antiga área do Instituto Agronômico do Sul, hoje Embrapa/campus da UFPel. Aliás, trabalhava na universidade desde 1977. Sempre foi um ser humano muito criativo, ativo, disposto, de bom caráter, pai e avô. Atualmente morava na zona central do município, muito conhecido na comunidade pelas atividades no meio tradicionalista gaúcho e na cultura local. Em várias gestões, ocupou o cargo de Posteiro Cultural do CTG Tropeiros do Sul, chegando ao posto de Patrão do ctg entre 2006 e 2007. Juntamente com o Sr. Antônio Martins, foi criador da "Cavalgada Cultural Conhecendo Capão do Leão" em 2006 - evento que se manteve ininterrupto até o presente. Também atuou no meio sindical, como membro do Grupo de Trabalho dos Vigilantes da UFPel. Em 1988, foi candidato a vereador pelo PMDB. Além disso, colaborou e participou de várias atividades culturais ao longo de sua vida.
Maciel (à direita) empunhando orgulhosamente a bandeira da Cavalgada Cultural "Conhecendo Capão do Leão" - evento em que foi um dos criadores em 2006. À direita, o amigo Arthur Victória

Uma grande perda para todos os amigos. Particularmente, muito do que este blog e seu autor conseguiram publicar ao longo dos últimos dez anos se deve a sua prestimosa ajuda. Somos também muito gratos pelo apoio que Maciel sempre nos deu.
De boina e jaqueta preta - na época em que foi Patrão do CTG Tropeiros do Sul

Fica nossa homenagem à sua memória.


terça-feira, 23 de agosto de 2016

ONG A4 promove feira de adoção de filhotes no dia 27 de Agosto


A ONG A4 - Associação dos Amigos dos Animais Abandonados, de Capão do Leão - promove no próximo dia 27 de Agosto, sábado, das 14 às 17 horas, uma feira de adoção de filhotes de cães na Agropecuária Salaberry, em Pelotas. O endereço é Avenida Fernando Osório número 1531. Vale a pena participar e adotar, caso você tenha interesse. O trabalho desenvolvido pela ong é importante e merece ser valorizado.

Compartilhe e avise aos amigos!

Histórias Curiosas XXIV

Marie Fredriksson,
vocalista da banda Roxette
Início da década de 90 e o noturno da Escola Presidente Castelo Branco “bombava” a cada começo de ano letivo. Devia ser 1991 ou 1992, aconteceu de uma aluna nova matricular-se no ensino médio (na época conhecido ainda como 2º. Grau) e passar a frequentar uma das turmas causando verdadeiro frisson nos rapazes. A moça loira, ligeiramente mais velha que os demais, de cabelo curto à moda da cantora sueca Marie Fredriksson da banda Roxette (que estava muita em voga na época), usando roupas “descoladas” e “modernas”, dona de um sotaque que denunciava sua origem carioca e cheia de gírias, foi uma novidade no meio de um grupo de alunos ainda interioranos, que não estavam acostumados com aquela menina de ar tão cosmopolita. Ao que parece, o pai, engenheiro de uma firma mineradora que estava instalada no município, tinha se transferido para Capão do Leão com a família para melhor atender suas obrigações profissionais.

O fato é que a moça além das características que já havia citado era realmente muito bonita e procurava sempre estar maquiada e perfumada. Não era afetada, agia com educação e cortesia e logo fez amizade com vários colegas. Unindo beleza, simpatia e um jeito um tanto quanto diferente para Capão do Leão, a moça arrancava suspiros entre os rapazes por razões mais que óbvias.

Todavia, as pretensões dos mais galanteadores logo diminuíram, pois a moça numa conversa informal se revelara homossexual e havia comentado com as outras meninas que tinha uma namorada que havia deixado no Rio de Janeiro e que, ocasionalmente, a visitava em datas especiais. Apesar da revelação, a moça não foi discriminada pelos demais e as coisas seguiram normalmente durante o decorrer do ano letivo.

Porém, nem todo mundo ficou sabendo da novidade logo. Aquilo ficou meio que restrito ao grupo de sua turma e alunos de outras turmas ainda olhavam a moça com certo interesse, mas sempre com o devido respeito.

Pois bem, havia uma turma de 2º. ano composta pelos mais atrasados em que um aluno gordinho que usava uma barbicha era a “alegria da galera”. Divertido, extrovertido e sempre bem-humorado, o tal aluno gordinho já havia se tornado uma espécie de mascote da turma por protagonizar momentos hilários e inusitados dentro da sala de aula e nas festas e bailes da juventude da época. Quem conviveu com ele diz que os causos contados a seu respeito seguramente dariam um livro. O sujeito, além disso, gostava bastante de um “goró” e era celebrizado por suas bebedeiras. Comentavam que ele era o rei do Xixi de Anjo – espécie de coquetel que basicamente é cachaça com leite condensado, mas que em cada canto tem o acréscimo de um ou mais ingredientes diferentes.

O professor de Literatura organizou então um seminário em que os seus alunos deveriam ler uma obra previamente listada e apresentarem uma resenha entre os colegas. Juntou algumas turmas e fez uma espécie de aulão para apresentarem os trabalhos. As apresentações começaram e o gordinho do 2º. ano estava presente ao lado de um colega que o acompanhara. A moça loira do início da história foi chamada pelo professor para apresentar sua resenha e o gordinho se encantou com a sua beleza e desenvoltura. Neste momento, muito curioso, o gordinho sussurrando pergunta ao seu colega:

- Bah, tchê! Quem é aquela loira? Que baita loiraça! Que encanto de mulher! Que avião!

- Olha Jeremias (nome fictício), aquela é a Marina (outro nome fictício), não é daqui, chegou este ano, veio do Rio, está na outra turma lá do fundo.

- Bah, me apresenta a loira, então. Tenho que conhecer melhor ela!

- Jeremias, posso até te apresentar a Marina, mas já te adianto que é fria, pois ela gosta a mesma coisa que tu gostas!

- Tá, tá bom então tchê. Quebra essa prá mim, Marquinhos (também um nome fictício).

Dias depois, Marquinhos informalmente apresenta Jeremias a Marina e a moça educadamente o cumprimenta, porém com certa reserva. Uma semana se passa, Marina indignada comentava com as amigas que “aquele gordinho”, o Jeremias, a havia feito uma proposta invasiva, convidando-a para beber com outros amigos num trêiler após a aula, sendo que eles mal se conheciam. A história se espalhou e as amigas disseram a Marina que não ligasse, pois o dito gordinho era famoso justamente pelas gafes que cometia.

Marquinhos e outros colegas ficaram também sabendo e na entrada da aula abordam o Jeremias querendo saber o que deu na cabeça dele de ser tão “carudo” e abordar a moça sem se quer ter intimidade suficiente com ela:

- Ô, Jeremias, como tu é cara-de-pau, irmão! Eu mal te apresentei a moça e tu já chegasses dando no meio. Eu não te falei que ela gosta da mesma coisa que tu gosta?

- Pois é, tchê. Eu até achei que dava para chegar, mas a “mina” não gostou muito. Sabe como é, eu até quis criar uma intimidade, quis convidar ela para fazer a mesma coisa que eu gosto, mas não deu muito certo.

- Jeremias, o que tu entendeste quando eu te disse que “ela gosta a mesma coisa que tu gosta”?! Eu quis dizer que a moça é lésbica, animal! Ela tem namorada que vem lá do Rio de vez em quando para se encontrarem – arremedou Marquinhos.

- Lésbica?! Pqp!! Mas tão gata e sapatona!

- Então, como tu foi ser tão cara-de-pau de convidar a guria para beber? – indagou outro colega que acompanhava a conversa.

Jeremias sem jeito conclui em sua ingenuidade cômica:

- Hum, hum...bah, tchê...eu pensei que quando o Marquinhos me disse que ela gostava da mesma coisa que eu gosto...Hum, hum...eu pensei que era cachaça!


A gargalhada foi geral que dava até para ouvir no outro prédio anexo da escola.